Principais destaques da entrevista*:
- Colaboração e priorização: para Anne Jacobson, o sucesso profissional depende mais de como você constrói caminhos junto aos outros do que apenas da entrega técnica individual. Com o amadurecimento na carreira, torna-se essencial escolher melhor as batalhas para ser uma liderança mais presente e intencional.
- Habilidades essenciais para o futuro: o diferencial competitivo dos profissionais reside no pensamento crítico (capacidade de formar opiniões próprias em vez de apenas consumir dados), na visão estratégica (ir além de “apagar incêndios” diários) e na curiosidade constante, que impulsiona o aprendizado e a inovação.
- Uso estratégico da inteligência artificial: a IA é um amplificador da capacidade humana, não uma substituta. O segredo é possuir uma base sólida de raciocínio para fazer as perguntas certas, permitindo que a tecnologia automatize processos e libere capital intelectual para tarefas mais estratégicas.
- Diversidade como convicção, não apenas estatística: a inclusão real exige políticas intencionais (como metas de contratação e processos estruturados), além de um ambiente psicologicamente seguro. Quando diferentes gerações e vivências trocam experiências, a inovação aumenta e as pessoas se sentem pertencentes, o que melhora o engajamento.
* conteúdo gerado com o auxílio da ferramenta de IA Gemini, do Google.
À frente da área de Talent Acquisition & Management do Grupo L’Oréal Brasil, uma das maiores empresas de beleza do mundo, está Anne Jacobson, uma referência em estratégias de atração e gestão de talentos.
Formada em Administração com ênfase em Marketing e com 17 anos de experiência profissional, sendo 13 deles dedicados à companhia, Anne coleciona reconhecimentos, que são frutos do seu empenho na construção de um corpo de trabalho diverso e inclusivo e na promoção de iniciativas que valorizam os diferentes talentos.
Na entrevista concedida com exclusividade à ADM PRO, a executiva compartilha os desafios de sua inspiradora e bem-sucedida jornada profissional e oferece insights valiosos sobre a transformação do mercado de trabalho, a gestão do ecossistema multigeracional, o impacto da inteligência artificial e o perfil ideal para os líderes do futuro. Confira!
Revista ADM PRO – Sua trajetória é marcada pela passagem em grandes organizações. De que forma as habilidades obtidas na formação de Administração e Marketing favoreceram sua carreira?
Anne Jacobson – A formação em Administração me deu algo que considero precioso: uma visão generalista do mundo. Psicologia, filosofia, economia e estatística são disciplinas que sempre me fascinaram e que, na graduação, tive a oportunidade de explorar de forma ampla. O grande valor está justamente nisso: construir uma base conectada, capaz de dialogar com diferentes áreas do conhecimento e ancorá-las na prática do dia a dia.
Já o marketing tem uma conexão ainda mais direta com o papel que exerço hoje. Na área de Recrutamento de Talentos, por exemplo, trabalhamos uma agenda robusta de Employee Value Proposition e reputação em parceria com a área de comunicação. Muitos dos conceitos que aprendi no marketing – posicionamento, proposta de valor, construção de marca – podem ser perfeitamente adaptados para fortalecer a marca empregadora de forma mais estratégica, dando mais voz e alcance às nossas ações. É essa ponte entre teoria e prática que torna a formação tão relevante até hoje.
ADM PRO – Nessa jornada, quais foram os principais desafios e aprendizados que moldaram sua carreira e a prepararam para a posição atual de liderança em Talent Acquisition?
Anne Jacobson – Com o tempo, o aprendizado que mais me marcou foi entender que, sem colaboração, não chegamos muito longe, por mais competentes que sejamos individualmente. Tenho um perfil bastante proativo e orientado ao resultado, o que muitas vezes me fez impor um ritmo que não era o das pessoas ao meu redor. Percebi que, na prática, não importa apenas o que você entrega, mas como você constrói esse caminho junto com os outros. No ambiente corporativo, e principalmente na L’Oréal, isso é muito evidente: a forma como você se relaciona e influencia é tão determinante quanto a sua entrega técnica.
Crescendo na carreira, também aprendi a escolher melhor as minhas batalhas. Fui me tornando mais consciente sobre onde, de fato, vale colocar energia. Sem dúvidas, as escolhas certas me tornaram não só uma profissional mais eficaz, mas uma líder mais presente e intencional.
ADM PRO – Na sua opinião, além das habilidades técnicas, quais são as competências mais importantes que um profissional deve desenvolver para garantir sua relevância no futuro?
Anne Jacobson – Três competências me parecem essenciais e cada vez mais raras. A primeira é o pensamento crítico. Em um mundo onde informações e dados chegam em velocidade e volume sem precedentes, a grande tentação é repassar opiniões prontas em vez de formar as próprias. Desenvolver a capacidade de analisar cenários complexos, questionar premissas e construir argumentos sólidos é um diferencial enorme. Pessoalmente, adoro quando as pessoas discordam de mim com embasamento, pois são esses debates que geram os insights mais ricos e as melhores soluções.
A segunda é a visão estratégica. Quando vivemos apenas apagando incêndios e respondendo às demandas mais urgentes, ficamos presos na camada tática do trabalho e isso é uma armadilha mais comum do que parece. Projetos de real transformação não nascem só da transpiração: precisam de reflexão, de diagnóstico profundo e de um olhar de longo prazo. Quem não consegue parar para pensar estrategicamente acaba ficando para trás.
E a terceira, que perpassa tudo, é a curiosidade. É ela que nos move, que nos faz questionar e enxergar além do óbvio. A minha curiosidade hoje está muito voltada para tecnologia e inteligência artificial — entender quais soluções posso trazer, junto com o meu time, para a área de Relações Humanas, tornando o nosso trabalho mais eficiente e, sobretudo, mais estratégico.
ADM PRO – Aproveitando essa questão sobre tecnologia, especialistas na área citam a qualidade das perguntas e a visão sistêmica como diferenciais importantes para os profissionais, especialmente diante do uso da inteligência artificial. Como treinar isso?
Anne Jacobson – Essa é uma pergunta que me toca diretamente, porque é algo que penso muito dentro da minha própria área. A inteligência artificial veio para amplificar a capacidade humana, mas só amplifica bem quem já tem uma base sólida de raciocínio e pensamento crítico.
Treinar a qualidade das perguntas começa com algo simples, mas não fácil: desenvolver o hábito de questionar. Em vez de chegar com uma solução, chegar com uma hipótese. Em vez de aceitar o dado na superfície, perguntar o que ele representa, de onde vem e o que pode estar escondido por trás dele. O uso da IA e da GenAI expande as possibilidades criativas da humanidade e otimiza processos de trabalho. Essas ferramentas vêm para nos auxiliar nas tarefas do dia a dia, permitindo o maior uso do nosso capital intelectual.
Na L’Oréal, já aplicamos a inteligência artificial há anos nos nossos processos, com foco em desenvolver uma tecnologia responsável, com ética algorítmica e prezando sempre pela privacidade de dados. Pensando em proporcionar o uso dessa tecnologia de forma responsável internamente, desenvolvemos o nosso próprio L’Oréal GPT, programado com as linguagens mais atuais de inteligência artificial existentes e com as diretrizes éticas da companhia. Também disponibilizamos aos colaboradores a LIA, Assistente Virtual do Grupo L’Oréal no Brasil, via Teams: um chatbot para tirar as principais dúvidas dos colaboradores sobre os sistemas e processos da empresa.
Além de utilizá-la no nosso ways of working, a IA hoje também é um recurso importantíssimo para o nosso processo de Pesquisa e Desenvolvimento de produtos. Já conseguimos integrar essa tecnologia para auxílio na descoberta de novas moléculas e na construção de formulações, por exemplo.
A IA não é vilã e, no fim, tenho certeza de que ela não vai substituir tão cedo a capacidade humana de fazer as perguntas certas e construir pensamentos lógicos. E, por isso, digo que precisamos nos desenvolver para usar essa ferramenta com sabedoria o mais rápido possível.
ADM PRO – Falando agora sobre diversidade: você lida com talentos que vão dos estagiários da Geração Z aos profissionais 50+. Qual o segredo para gerir um ecossistema no qual diferentes gerações trabalham juntas?
Anne Jacobson – Diria que o respeito genuíno às diversidades. Cada geração carrega uma bagagem única: os mais experientes trazem repertório, maturidade e profundidade do tempo. Já os mais jovens carregam velocidade, irreverência, uma relação nativa com a tecnologia e uma disposição para questionar o que está posto.
Quando essas perspectivas se encontram em um ambiente psicologicamente seguro, no qual as pessoas se sentem à vontade para falar, discordar e aprender umas com as outras, o resultado é uma equipe mais inovadora e produtiva.
ADM PRO – Em seu contato direto com jovens talentos, como você avalia o comportamento, a ambição e os principais desafios que a Geração Z tem apresentado no mercado de trabalho? Existe um perfil ideal de líder para esses jovens?
Anne Jacobson – A Geração Z me encanta e me desafia ao mesmo tempo. São jovens que chegam ao mercado com uma clareza de propósito: querem saber o porquê antes do como, entender o impacto do seu trabalho, se sentir parte de algo maior. Isso é muito positivo e obriga as organizações a serem mais transparentes e autênticas.
Ao mesmo tempo, percebo que por vezes há ansiedade para a maturação da carreira. Vivemos em uma era de gratificação imediata, e isso acaba refletindo na expectativa de crescimento acelerado, feedback constante e de reconhecimento rápido. O desafio está em ajudá-los a entender que consistência e profundidade levam tempo e que esse tempo é parte do aprendizado.
Jamais existirá uma fórmula única para um perfil, mas vejo que essa geração responde bem a líderes que são humanos antes de serem chefes: que compartilham vulnerabilidades, se comunicam com clareza, dão autonomia com responsabilidade e que estão genuinamente interessados no desenvolvimento das pessoas. Liderança pelo exemplo, com propósito é, na verdade, um modelo que funciona bem para qualquer geração.
ADM PRO – Além dos fatores geracionais, quais as principais dificuldades que você ainda vê no desenvolvimento de estratégias de diversidade dentro das empresas? Como essa inclusão impacta positivamente a inovação e melhora o ambiente de trabalho?
Anne Jacobson – A maior dificuldade que vejo é a distância entre o discurso e a prática. Muitas empresas constroem estratégias de diversidade lindas no papel, mas que não se traduzem em mudanças reais no dia a dia — nos processos seletivos, nas promoções, nos critérios de avaliação, nas dinâmicas de poder. Quando a diversidade é tratada como agenda de imagem e não como convicção estratégica, ela não evolui. As pessoas percebem isso com muita clareza. É importante ser intencional nas políticas de inclusão desenvolvidas, buscando construir constância e dar cada vez mais robustez a elas.
Identificamos que a construção de um corpo de trabalho diverso também deve ser um foco no recrutamento de novos talentos. Por isso, na L’Oréal, todos os nossos programas de entrada – Jovem Aprendiz, Estágio e Trainee – tem 50% de suas vagas destinadas para pessoas pretas e pardas. Assim, nos comprometemos a treinar e desenvolver uma população de líderes do amanhã que é diversa e tem visões de mundo extremamente complementares entre si.
Além disso, por aqui buscamos promover iniciativas de recrutamento interseccionais, como a L’Oréal Recruta Diversidade, com foco em pessoas com deficiência, e a L’Oréal Para Todas as Gerações, voltada para pessoas com mais de 50 anos. Ser inclusivo no momento da contratação é um pilar que considero fundamental e que se tornou uma prioridade da companhia. Quando esse compromisso é levado a sério, o impacto é extraordinário.
Atualmente, cerca de 45% dos nossos colaboradores são pretos ou pardos e cerca de 16,4% são pessoas da comunidade LGBTQUIAPN+. Percebemos o quão o trabalho é mais eficiente com um ambiente diverso, porque alguém sempre traz o ponto de vista que o grupo homogêneo deixaria passar. E o clima dos times melhora porque as pessoas se sentem vistas, respeitadas e pertencentes — e pertencimento é um dos maiores drivers de engajamento e retenção de talentos que existe.
Outro desafio relevante é trabalhar os vieses inconscientes de forma contínua. Não basta um treinamento anual — é preciso criar mecanismos que questionem as escolhas ao longo do tempo, que tornem os processos mais estruturados e menos susceptíveis à subjetividade enviesada.
Diversidade sem inclusão é só estatística. Quando as duas andam juntas, é transformação de verdade.
ADM PRO – Em um mercado ainda predominantemente masculino em relação aos cargos de alta liderança, como você avalia a presença das mulheres nesses postos? Quais os principais desafios estruturais e culturais que elas ainda enfrentam nesse contexto?
Anne Jacobson – Avançamos, isso é inegável. A presença feminina em posições de alta liderança cresceu de forma consistente nos últimos anos, especialmente em empresas que assumiram compromissos reais com diversidade como a L’Oréal.
No mercado, vejo os desafios em duas dimensões: estrutural, com as mulheres acumulando uma jornada dupla ou tripla entre carreira, maternidade e cuidado familiar, sem que as organizações ofereçam suporte proporcional a essa realidade; e cultural, com vieses inconscientes em processos de promoção, critérios de avaliação e dinâmicas de reunião. Uma mulher assertiva ainda é lida de forma diferente de um homem assertivo. Uma mãe que precisa sair mais cedo ainda é vista de maneira diferente em relação a um pai na mesma situação. Mudar isso exige mais do que políticas, exige uma transformação cultural profunda e contínua.
Sou grata pelas conquistas que tivemos no Grupo. Somos uma empresa feminina e feminista, com políticas voltadas para a valorização das nossas colaboradoras mulheres. Conquistamos o selo EDGE Lead Plus em equidade de gênero, e não é à toa: conseguimos zerar a desigualdade salarial entre funcionários homens e mulheres com cargos similares, e mais da metade dos nossos cargos de liderança são ocupados por elas.
Também buscamos construir um ambiente de trabalho que vai na contramão do preconceito com mulheres que são mães. Hoje, mais de 51% de nossas colaboradoras têm filhos, sendo 47% delas negras. E, pensando em apoiá-las no início da maternidade, temos o programa Share&Care, com um apanhado de políticas para acolher essa população. Oferecemos auxílios como licença-maternidade estendida, auxílio-creche para crianças de até dois anos e acompanhamento de uma assistente social durante toda a gestação e retorno ao ambiente de trabalho. Essas ações fazem toda a diferença.
ADM PRO – Para os profissionais que almejam alcançar uma posição de liderança executiva em uma grande empresa, qual conselho você daria neste atual mundo hiperconectado?
Anne Jacobson – O primeiro conselho é: se conheça profundamente. Autoconhecimento não é um exercício de autoindulgência, é uma vantagem competitiva. Saber quais são suas forças, pontos de desenvolvimento e valores te torna um líder mais consciente e confiável.
O segundo é: cultive relações genuínas. Em um mundo hiperconectado, as relações humanas se tornaram mais raras e valiosas. Construir uma rede de confiança, não de contatos, é um dos ativos mais duradouros de qualquer carreira executiva.
O terceiro é abraçar o desconforto. Crescimento real raramente acontece dentro da zona de conforto. As posições de liderança executiva exigem pessoas que já foram testadas, que passaram por projetos difíceis, por situações ambíguas e que saíram desses momentos com mais repertório e resiliência.
E, por último: desenvolva uma relação saudável com a tecnologia. Não como usuário passivo, mas como alguém que entende seu potencial e sabe como aplicá-la estrategicamente. Líderes que ignoram essa agenda já estão ficando para trás e os que a abraçam com curiosidade e intencionalidade têm uma vantagem enorme.


