Principais destaques da entrevista*:
- Desenvolvimento de carreira e habilidades: a construção da carreira da Admª Elvira Cavalcanti Presta foi baseada em dedicação, iniciativa e busca constante por aprendizado. Ela destaca que, à medida que se cresce, é essencial migrar de competências técnicas (hard skills) para o desenvolvimento de soft skills, como relacionamento, networking, comunicação e construção de alianças.
- Atuação de destaque: Elvira liderou a privatização da Eletrobras em 2022, um projeto que a enche de orgulho. Ela integrou a empresa em 2018, e contribuiu para que, ao lançar a oferta pública em maio de 2022, a empresa estivesse avaliada em R$70 bilhões. A operação foi a segunda maior oferta na história da bolsa brasileira até aquele momento.
- Assumindo as rédeas da carreira e liderança feminina: em um ambiente com baixa representatividade feminina na alta liderança, ela ressalta a importância de “tomar as rédeas da sua carreira”. Isso envolve focar no trabalho, estudar, ter dedicação, assumir desafios, buscar aprendizado constante e, quando necessário, verbalizar situações de injustiça ou preterimento.
- Paciência e iniciativa para as novas gerações: para os profissionais que estão chegando agora, ela alerta sobre a busca por “carreira meteórica”, sem consistência. O caminho, segundo ela, é equilibrar a ambição com paciência, iniciativa, estudo e atualização (especialmente sobre tecnologia e transição energética), criando networking, buscando mentoria e pedindo feedback.
*conteúdo gerado com o auxílio da ferramenta de IA Gemini, do Google.
Dedicação, iniciativa e busca constante por aprendizado foram as bases para a construção da carreira da administradora Elvira Cavalcanti Presta. Sua respeitada trajetória profissional é marcada por passagens em grandes empresas do setor energético e uma atuação expressiva nas áreas financeira, de governança e de mercado de capitais.Ex-CFO e Relações com Investidores da Eletrobras, maior empresa de energia elétrica da América Latina, Elvira teve um papel decisivo na privatização da empresa, em 2022. Antes disso, atuou nesse mesmo setor como C-level da Neoenergia e foi Controller da Light, ambas companhias abertas. Atualmente, é diretora executiva financeira e administrativa da holding de tecnologia New Wave, conselheira fiscal da Gerdau e da Embraer, além de membro do Comitê de Auditoria da Copa Energia.
Em celebração ao Dia Internacional da Mulher, Elvira compartilha nessa entrevista exclusiva ao CRA-SP os desafios e as conquistas de sua carreira, comenta sobre o mercado energético brasileiro e traz dicas para as novas gerações que almejam o topo das organizações. Confira!
Revista ADM PRO – Você começou sua carreira na Brahma, depois assumiu cargos na área financeira de importantes empresas privadas. Como foi a trajetória até chegar ao cargo de CFO da Eletrobrás?
Elvira Cavalcanti Presta – Tenho mais de 30 anos de formação em Administração e venho de uma família de funcionários públicos. Meu pai tinha o sonho de que eu fizesse um concurso público, já que ele, minha mãe e irmã seguiram por esse caminho, mas eu não quis. Escolhi o curso de Administração porque sempre gostei do ambiente de empresa, principalmente o setor privado. Quando me formei, a Brahma estava fazendo seu primeiro programa de trainee, o que era novidade naquela época. Fui selecionada no Nordeste e trabalhei lá por aproximadamente nove anos, a maior parte deles em Recife, mas queria crescer e ter oportunidade em outras cidades. Como a sede da empresa fica em São Paulo, pedi transferência e vim para cá. A essa altura, já trabalhava na área financeira, mas numa fase inicial. No entanto, no ano em que ocorreu a fusão com a Antártica, dando origem à AMBEV, decidi sair. Foi uma decisão difícil, porque era uma empresa conhecida no mercado, mas, se o mundo corporativo ainda é muito machista, imagina como era há 25 anos, numa empresa de bebidas. Não via perspectiva de crescimento para chegar ao cargo de C-level, então saí. Passei por outras empresas e setores, como telecom e ferrovias, até ingressar no setor elétrico, onde atuei na Light e na Neoenergia. Depois de 25 anos de experiência no setor privado, recebi o convite para integrar o conselho de Administração da Eletrobrás, que na época era estatal.
ADM PRO – Ao olhar para trás, que competências da Administração você percebe que foram fundamentais no começo da sua trajetória?
Elvira Presta – No início, as competências técnicas são o que você precisa para aprender o que tem que ser feito. Por exemplo, se o trabalho é na área de compras, tem que entender aquele processo. À medida que vai crescendo, você começa a desenvolver soft skills. No início da carreira, eu era mais técnica e depois percebi que relacionamento, networking, comunicação e construir alianças também eram importantes. As empresas são ambientes muito políticos, não só na estatal, na empresa privada também. Outra coisa que me ajudou foi a minha mobilidade. Sou de Recife, mas eu tive a iniciativa de mudar e morar em São Paulo, aí surgiu um convite e fui para Brasília e depois para o Sul do Brasil. As competências são necessárias para você crescer. Se você não mudar, muitas vezes, algumas posições vão se fechar para você.
ADM PRO – Quais as principais diferenças que você vivenciou entre os setores público e privado?
Elvira Presta – São mundos completamente diferentes. O setor privado tem agilidade, processo decisório e, dependendo da empresa, tem um grau de informalidade maior, além de autonomia para lidar com os recursos, sejam eles humanos ou orçamentos. Já a empresa de economia mista, como a estatal, faz parte de uma administração indireta, ou seja, não é um órgão de governo, mas se sujeita a muitos regramentos. Quando entrei na empresa, não sabia uma série de normas, leis e decretos que se aplicam exclusivamente às estatais. Elas são subordinadas ao ministério supervisor, no caso da Eletrobrás, quando era estatal, ela se reportava ao Ministério de Minas e Energia. Além disso, existe uma secretaria de Estatais, os órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União. O ambiente estatal, comparado à empresa privada, é muito mais moroso por ter que atender a todos esses órgãos. A governança é mais complexa, pois estamos falando de dinheiro público. Entretanto, tudo isso tira a competitividade da empresa, porque acaba sendo lenta para cumprir esse ritmo legal. Outra questão que vi, principalmente porque fui para a Eletrobrás pós-Lava Jato, é que sempre há o risco de interferência política e de má alocação de capital. O troca-troca que ocorre até hoje nas empresas estatais é muito negativo. Você vê grandes estatais que a cada um ano e meio troca de presidente. Como é que se pode ter empresas tão grandes e complexas, processos decisórios robustos e uma estratégia de longo prazo, se em dois anos, no máximo, troca o CEO e vários diretores? Ao mesmo tempo, nas estatais existem pessoas muito preparadas, com nível de qualificação alto e um corpo técnico realmente de excelência. O problema é a parte de recursos humanos na estatal que é engessada. O modelo preconiza que todo mundo é igual e faz tudo da mesma forma, mas sabemos que isso não é verdade. Sempre tem aquele que trabalha mais, que entrega mais. Muitas vezes esse sistema é perverso e não remunera de forma justa.
ADM PRO – Qual decisão ou projeto você mais se orgulha de ter participado e que deixou um marco significativo?
Elvira Presta – Um projeto que me orgulho é de ter sido uma das líderes da privatização da Eletrobras, em 2022. Tudo começou no final de 2017, quando a empresa me chamou porque precisava de um número mínimo de membros independentes para criar um comitê de auditoria, conforme exigia a lei de estatais, instituída em 2016. Fui escolhida em uma eleição separada, conforme determina o estatuto da empresa, e entrei como conselheira de Administração em 2018, integrando também o comitê. No ano seguinte, recebi um convite para ser CFO e RI (Relações com Investidores) da empresa e aceitei. A partir daí, vi as oportunidades de melhorar a empresa, ainda estatal, que vinha de uma crise muito grave, em razão de problemas ocasionados pela Lava Jato e decisões equivocadas. Em 2015, a empresa estava extremamente desvalorizada na Bolsa de Valores, valendo R$9 bilhões. Começamos a trazer metodologias, a gerir a empresa com responsabilidade e construir valor. O mercado achava que a privatização não ia sair, porque o processo é muito burocrático, devido a necessidade de ter uma lei aprovada no Congresso Nacional. Todo o rito foi obedecido e ao lançarmos a oferta pública, em maio de 2022, a empresa já valia R$70 bilhões na Bolsa. Em seis meses preparamos tudo e, em janeiro de 2023, convocamos a assembleia e eu a presidi. Foi difícil. A assembleia durou quase nove horas, tinha 12 itens na ordem do dia e todos tinham que ser aprovados para que a privatização acontecesse, mas deu certo. A oferta total da operação foi de R$ 33,7 bilhões. Foi a segunda maior oferta na história da bolsa brasileira até hoje e, no ano de 2022, foi a terceira maior oferta do mundo. Depois a empresa mudou a governança e ainda fiquei mais um ano e meio ajudando na transição dos novos conselheiros e diretores. Encerrei esse ciclo de 6 anos e tenho a certeza que contribui para melhorar a gestão pública do país.
ADM PRO – Historicamente, o setor de energia no Brasil apresenta baixa representatividade feminina em cargos de liderança. Como descreveria sua atuação como CFO neste ambiente?
Elvira Presta – A falta de representatividade feminina na alta liderança não ocorre apenas no setor de energia. Infelizmente, é a realidade na maioria dos setores. No meu caso, sempre foquei em fazer o que tinha que ser feito: trabalhar, estudar, dedicar e galgar posições. Quando houve situações em que me senti sendo preterida ou tratada de forma injusta, sempre verbalizei, nunca levei desaforo para casa. É importante tomar as rédeas da sua carreira, demonstrar interesse, tomar a iniciativa e buscar aprendizado. Para eu chegar à posição de CFO foi uma construção a longo tempo. A cada nova empresa, setor, cada curso que se faz, cada livro que lê, cada desafio que você assume, enfim, o torna um profissional melhor e mais experiente, e uma hora a oportunidade surge e você está preparada.
ADM PRO – Atualmente, você está como diretora financeira e administrativa da New Wave, que atua com sustentabilidade e tecnologia para o setor mínero-metalúrgico. Como foi a transição do setor energético para essa área?
Elvira Presta – Não tem fórmula mágica. Tem que estudar e aprender sobre o novo setor. Cada mudança é um desafio, porque não se conhece o setor e seu jargão técnico. Se forem setores regulados, tem que entender a regulação, a dinâmica, como aquela área ganha dinheiro, quais os desafios, enfim. Desta vez não está sendo diferente. Recebi o convite e achei o projeto interessante. A New Wave é uma empresa relativamente nova, ainda pré-operacional, mas vem desenvolvendo tecnologias inovadoras e disruptivas para o tratamento de resíduos do setor de mineração. O projeto é voltado à produção energética, à sustentabilidade, para trazer soluções que tratem os rejeitos e os transformem em produtos e subprodutos comercializados. É uma possibilidade de geração de valor grande.
ADM PRO – Como funciona a dinâmica real entre diretoria executiva, conselho administrativo e comitês? Onde costumam nascer os conflitos silenciosos?Elvira Presta –Quando a gente aceita posições, seja de conselheira, membro de comitês ou mesmo posição de diretor de uma empresa, é importante avaliar se você tem tempo para se dedicar àquela organização, porque é uma responsabilidade fiduciária. Em companhias abertas, é necessário preencher uma série de informações, declarar se você tem algum conflito ou relacionamento com uma empresa em particular, enfim, são situações que não podem acontecer e a governança exige isso. Nas empresas que atuo sempre tive essa precaução. Hoje sou conselheira da Neoenergia que é do setor elétrico, mas só entrei porque já tinha saído da Eletrobrás há mais de 1 ano. As outras empresas que atuo são de setores completamente diferentes e uma não compete com a outra. Tem a Embraer, que é setor de aeronaves; a Gerdau, do setor de siderurgia; e a Copa Energia, empresa de gás de capital fechado. Esse requisito é obrigatório. O dia a dia requer dedicação, então organizo bem minha agenda, porque tem momentos, como na época de divulgação do balanço ou dos resultados trimestrais, que são mais demandantes. São várias empresas que tenho que ler os balanços e me preparar para as reuniões. Tem que seguir regras, além de ter a preocupação com a transparência e com a nossa própria reputação.
ADM PRO – Em relação ao mercado energético, o Brasil é conhecido como uma “potência verde”. Na sua opinião, qual é o nosso papel neste cenário de transição energética global e quais tecnologias serão mais demandadas no futuro próximo?
Elvira Presta – A matriz elétrica brasileira é motivo de inveja para muitos países do mundo, porque temos recursos naturais abundantes, diferente de muitos lugares que ainda dependem, por exemplo, do carvão como uma fonte importante para geração de energia. O Brasil tem uma matriz predominantemente hídrica, que já foi muito maior, mas hoje deve estar entre 55 e 60%. Nos últimos 20 anos, o país investiu na diversificação de suas fontes, até por conta do racionamento que tivemos nos anos 2000, então temos fontes eólicas, solares, térmicas a gás, biomassa, grandes e pequenas centrais hidrelétricas e até nuclear (pouco, mas temos). O Brasil tem uma matriz hoje 88% renovável, limpa e, por isso, somos essa potência verde. Até na parte do combustível fóssil, o Brasil desenvolveu o Proálcool no passado. Outro grande consumidor de energia da atualidade são os data centers. A inteligência artificial e as novas tecnologias requerem um volume colossal de energia para gerar a rapidez da ferramenta. O setor é promissor, porém tem suas complexidades, afinal, ele é regulado e essa regulação não acompanhou a velocidade da transformação dessa matriz. Quem acompanha de perto o setor elétrico sabe que estamos passando por enormes problemas, pois há um excesso de energia renovável, que congestiona as linhas de transmissão. No Brasil, a maior incidência solar e de ventos é no Nordeste, mas o grande mercado consumidor é no Sudeste. Então, não adianta gerar energia no Rio Grande do Norte, na Bahia, no Ceará, se o consumo está aqui e tem que vir pelas linhas de transmissão. Isso tem levado o Nordeste a exportar energia, porque estamos com excesso de energia renovável gerados em horários em que não há tanta demanda. Muitas empresas investiram pesado nessa agenda, numa época em que os preços de energia estavam altos e a taxa de juros do país estava baixa, no entanto, esse cenário mudou: a taxa de juros subiu e as empresas se viram em dificuldades financeiras. Vivemos um imbróglio regulatório onde muita coisa tem que ser ajustada para não perdemos a oportunidade que está sendo dada por essa demanda maior de energia aqui no Brasil.
ADM PRO – Como os profissionais que estão chegando agora no mercado podem equilibrar a ambição profissional com a paciência necessária para os ciclos corporativos?
Elvira Presta – Essa é uma dificuldade das novas gerações, que nasceu nesse ambiente acelerado de redes sociais, vídeos de poucos segundos e sem paciência para nada. Mas não existe isso de carreira meteórica, que “do dia para noite” você vira CEO. Quem sobe rápido, em geral, também cai rápido, porque falta bagagem e consistência. O que eu diria para quem está começando agora é: tenha paciência, mas tenha iniciativa. Não fique acomodado, estude, leia. O mundo está mudando muito, olhe a quantidade de tecnologias que temos, a transição energética, as terras raras, as mudanças geopolíticas, enfim, tem muita coisa acontecendo. Há muito mais maneiras de estudar e de se manter atualizado do que no passado. Tem muito material gratuito e de qualidade na internet. Então, trabalhe, estude, tenha comprometimento, responsabilidade, cumpra os prazos que negociou, mantenha-se atualizado, crie networking, busque mentoria e peça feedback. Para quem trabalha, é sério, dedicado e tem iniciativa, as oportunidades aparecem.


